O Caminho Para o Céu
ou "A Parábola de Por Quê a Morte Precisa de Uma Foice"
Você é ferreiro?
A voz atrás dele veio tão inesperadamente que Vasily até estremeceu. Além disso, ele não ouviu a porta da oficina se abrir nem ninguém entrar.
— Você já ouviu falar em bater na porta? — respondeu ele rudemente, um pouco zangado consigo mesmo e com o ágil cliente.
— Bater? Hmm... ainda não experimentei isso — respondeu a voz.
Vasily pegou um pano da mesa e, enxugando as mãos cansadas, virou-se lentamente, revirando na cabeça a repreensão que agora iria falar na cara daquele estranho. Mas as palavras permaneceram em algum lugar de sua cabeça, porque um cliente muito incomum estava diante dele.
— Você poderia endireitar minha foice? — perguntou o convidado com voz feminina, mas um pouco rouca.
— Então é isso? É o fim? — Jogando o trapo em algum canto, o ferreiro suspirou.
— Ainda não é o fim, mas agora está muito pior do que antes — respondeu a Morte.
— É lógico, — concordou Vasily, — isso não dá pra discutir. O que eu deveria fazer agora?
— Endireitar a foice — repetiu Morte, pacientemente
— E então depois?
— E depois afie, se possível.
Vasily olhou para a foice. E, de fato, vários amamassados eram visíveis na lâmina, e a própria lâmina já havia começado a ondular.
— Isso é compreensível, — ele assentiu, — mas o que devo fazer? Orar ou recolher minhas coisas? Essa é a minha primeira vez, por assim dizer...
— A-ah-ah… Você está falando sobre isso, — os ombros da Morte tremeram em uma risada silenciosa, — não, eu não estou atrás de você. Eu só preciso consertar minha foice. Você pode?
— Então eu não morri? — perguntou o ferreiro, apalpando-se discretamente.
— Você que sabe melhor. Como você está se sentindo?
— Sim, pareço normal.
— Sem náusea, tontura, dor?
— N-n-não, — disse o ferreiro hesitante, atentando-se a seus sentimentos íntimos.
— Nesse caso, você não tem nada com que se preocupar, — respondeu Morte e entregou-lhe a foice.
Pegando-a com suas mãos instantaneamente rígidas, Vasily começou a examiná-la de diferentes ângulos. Havia trabalho a ser feito ali por meia hora, mas saber quem iria sentar atrás dele e esperar o trabalho terminar automaticamente estendeu o prazo em pelo menos algumas horas.
Pisando com as pernas bambas, o ferreiro aproximou-se da bigorna e pegou um martelo.
— Você é... Sente-se. Você não vai aguentar, não é?! — Colocando toda a sua hospitalidade e boa vontade na voz, sugeriu Vasily.
Morte assentiu e sentou-se no banco, encostando as costas na parede.
O trabalho estava chegando ao fim. Depois de endireitar a lâmina o máximo possível, o ferreiro, pegando a pedra de amolar na mão, olhou para o convidado.
— Perdoe-me a minha franqueza, mas simplesmente não consigo acreditar que estou segurando nas mãos um objeto com o qual tantas vidas foram ceifadas! Nenhuma arma no mundo se compara a ela. Isso é realmente incrível.
A Morte estava sentada em um banco em uma posição relaxada e olhando para o interior da oficina, de alguma forma visivelmente tensa. O capuz oval escuro virou-se lentamente em direção ao ferreiro.
— O que você disse? — ela disse baixinho.
— Eu disse que não posso acreditar que estou segurando uma arma nas mãos que...
— Arma? Você disse arma?
— Talvez eu não tenha dito dessa forma, é que...
Vasily não teve tempo de terminar. A Morte, saltando da cadeira na velocidade da luz, um momento depois se viu bem na frente do rosto do ferreiro. As bordas do capô tremeram ligeiramente.
— Quantas pessoas você acha que eu matei? — ela sibilou por entre os dentes.
— Eu... eu não sei, — Vasily disse espremido, baixando os olhos para o chão.
— Responda! — A Morte agarrou seu queixo e levantou a cabeça, — quantos?
— E-eu não sei...
— Quantos? — ela gritou bem na cara do ferreiro.
— Como posso saber quantos eram? — Tentando desviar o olhar, o ferreiro guinchou com uma voz que não era a sua.
A Morte soltou o queixo e ficou em silêncio por alguns segundos. Então, curvada, voltou ao banco e, suspirando pesadamente, sentou-se.
— Então você não sabe quantos eram? — ela disse baixinho e, sem esperar resposta, continuou, — e se eu te dissesse que nunca, ouviu?! Nunca matei uma única pessoa. O que você diz disso?
— Mas... Mas e quanto?...
— Eu nunca matei pessoas. Por que precisaria disso se vocês estão fazendo um excelente trabalho nesta missão? Vocês mesmos estão se matando. Vocês! Vocês podem matar por causa de papéis, por causa de sua raiva e ódio, vocês pode até matar sem motivo, por diversão. E quando isso não é suficiente para vocês, vocês iniciam guerras e matam uns aos outros às centenas e milhares. Vocês simplesmente gostam disso. Vocês dependem do sangue de outras pessoas. E sabe o que há de mais nojento nisso tudo? Vocês não podem admitir isso para si mesmos! É mais fácil para vocês me culpar por tudo, — ela ficou em silêncio por um momento, — você sabe como eu era antes? Eu era uma menina linda, encontrava as almas das pessoas com flores e as acompanhava até o lugar onde estavam destinadas a estar. Sorria para eles e os ajudava a esquecer o que aconteceu com eles. Já faz muito tempo... Olha o que aconteceu comigo!
Ela gritou as últimas palavras e, saltando do banco, tirou o capuz da cabeça.
Diante dos olhos de Vasily apareceu o rosto de uma mulher muito velha, manchado de rugas. Cabelos grisalhos e esparsos pendurados em mechas emaranhadas, os cantos dos lábios rachados estavam anormalmente puxados para baixo, expondo os dentes inferiores, fragmentos e tortos espreitando de sob os lábios. Mas o mais terrível eram os olhos. Olhos completamente desbotados e inexpressivos fitaram o ferreiro.
— Olha em quem eu me transformei! Você sabe por quê? — Ela deu um passo em direção a Vasily.
— Não, — encolhendo-se sob o olhar dela, ele balançou a cabeça.
— Claro que você não sabe, — ela sorriu, — vocês me fizeram assim! Eu vi como uma mãe mata os filhos, vi como um irmão mata o irmão, vi como uma pessoa pode matar cem, duzentas, trezentas outras pessoas em um dia!.. Eu chorei olhando para isso, eu uivei de desespero, pela impossibilidade do que estava acontecendo, gritei de horror...
Os olhos da Morte brilharam.
— Troquei meu lindo vestido por essas roupas pretas para que o sangue das pessoas que eu estava despedindo não ficasse visível nele. Coloquei um capuz para que as pessoas não vissem minhas lágrimas. Eu não dou mais flores para eles. Vocês me transformaram em um monstro. E então eles me acusaram de todos os seus pecados. Claro, é tão simples... — ela encarou o ferreiro sem piscar — eu te acompanho, eu te mostro o caminho, eu não mato gente... Me dá minha foice, seu idiota!
Tendo arrancado a arma das mãos do ferreiro, a Morte se virou e se dirigiu para a saída da oficina.
— Posso fazer uma pergunta? — ela ouviu por trás.
— Quer perguntar por que preciso de uma foice então? — parando na porta aberta, mas sem se virar, ela perguntou.
— Sim.
— A estrada para o Céu... Há muito ela está completamente tomada de mato.
A versão original desse conto russo foi escrita por Evgeniy Cheshirko.