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Os cegos que tateiam a Verdade

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Uma exposição sobre as origens da idolatria usando a analogia feita por Paulo de Tarso no livro de Atos dos Apóstolos.

Sumário O Evangelho une epicureus e estóicos Discurso, julgamento, ou ambos? A religiosidade dos idólatras Tão perto, mas não encontram a Deus O fim da ignorância e do desconhecimento Conclusão

Que a Bíblia é nosso manual de fé e prática, isso todos sabemos. Mas a Bíblia também nos ensina não apenas sobre nossa fé, mas também porquê certas coisas são do jeito que são. Hoje, veremos o que o discurso de Paulo no Areópago (At 17:16–31), em Atenas, tem a nos ensinar sobre a religião ateniense — e de praticamente todos os povos antigos.

O Evangelho une epicureus e estóicos

E, enquanto Paulo [...] esperava em Atenas, o seu espírito se comovia em si mesmo, vendo a cidade tão entregue à idolatria. De sorte que disputava na sinagoga com os judeus e religiosos, e todos os dias na praça com os que se apresentavam. E alguns dos filósofos epicureus e estóicos contendiam com ele; e uns diziam: Que quer dizer este paroleiro? E outros: Parece que é pregador de deuses estranhos; porque lhes anunciava a Jesus e a ressurreição.

— Atos dos Apóstolos 17:16–18

O trecho acima começa dizendo que Paulo, homem cheio do Espírito Santo, não se aguentava ao ver tanta idolatria em Atenas e foi logo debater nas sinagogas e na ágora — uma espécie de praça central que os pensadores gregos se reuniam para debater. Nessa época, duas filosofias rivais disputavam nas ágoras: epicurismo e estoicismo; e ainda assim, o Evangelho anunciado a eles era tão escandaloso que unia esses dois grupos de pensadores rivais contra Paulo: ambos não conseguiam entender o que Paulo dizia, e falavam “o quê este falador quer dizer com suas palavras?” Eles eram cegos tateando a Verdade, e tateando talvez até sentiam sua forma mas não eram capazes de enxergá-la.

Como não podiam enxergar esta Verdade, começaram a tentar deduzir coisas que achavam que sabiam sobre ela, mas não sabiam, como cegos tentando adivinhar sua cor, seu brilho; eles ouviram Paulo falar em grego sobre Ἰησοῦν καὶ τὴν ἀνάστασιν [Iesoun kai ten anastasin] e pensavam que Paulo estava falando de um deus chamado Jesus e sua deusa-esposa Anastasia. Como eram acostumados a adorar deuses como a Sorte, a Vergonha, a Fome e o Desejo, eles acharam que anastasin (ressurreição) era o nome de uma divindade da ressurreição — estavam tão cegos que a Verdade estava sendo mostradas em sua cara, mas não conseguiam a entender completamente. E esta ignorância dos gregos colocava Paulo em uma posição perigosa, pois era proibido por lei pregar novos deuses estrangeiros em Atenas e em Roma (At 16:21); naquele momento, Paulo corria risco de vida.

Discurso, julgamento, ou ambos?

E tomando-o, o levaram ao Areópago, dizendo: Poderemos nós saber que nova doutrina é essa de que falas? Pois coisas estranhas nos trazes aos ouvidos; queremos pois saber o que vem a ser isto (Pois todos os atenienses e estrangeiros residentes, de nenhuma outra coisa se ocupavam, senão de dizer e ouvir alguma novidade).

— Atos dos Apóstolos 17:19–21

Por causa de toda essa confusão na cidade, os atenienses levam Paulo ao conselho da cidade que se reunia em uma pedra chamada de Colina de Ares (ou Areópago). O texto diz que os atenienses estavam profundamente curiosos sobre os ensinamentos de Paulo — é importante saber que todos os gregos amavam não fazer nada além de pensar e debater sobre todas as coisas, o que eles chamavam de ócio, e toda novidade que ouviam era motivo para se pensar e debater ainda mais, daí sua grande curiosidade —, mas sabendo que Paulo foi acusado de pregar deuses estranhos em Atenas e estava sob perigo, podemos entender que sua ida ao Areópago não foi apenas um convite amistoso para contar novidades, mas também um julgamento velado de sua doutrina, e dele próprio.

A religiosidade dos idólatras

E, estando Paulo no meio do Areópago, disse: Homens atenienses, em tudo vos vejo um tanto supersticiosos; Porque, passando eu e vendo os vossos santuários, achei também um altar em que estava escrito: Ao Deus Desconhecido. Esse, pois, que vós honrais, não o conhecendo, é o que eu vos anuncio.
O Deus que fez o mundo e tudo que nele há, sendo Senhor do céu e da terra, não habita em templos feitos por mãos de homens; Nem tampouco é servido por mãos de homens, como que necessitando de alguma coisa; pois ele mesmo é quem dá a todos a vida, e a respiração, e todas as coisas; E de um só sangue fez toda a geração dos homens, para habitar sobre toda a face da terra, determinando os tempos já dantes ordenados, e os limites da sua habitação;

— Atos dos Apóstolos 17:22–26

Já no Areópago, Paulo começa sua fala dizendo aos atenienses algo que ele percebeu desde que chegou a Atenas: a idolatria daquele povo; mas ainda não era hora de condená-la, primeiro eles precisavam entender porquê idolatravam para depois entender o Deus de Paulo — ele precisava ensinar aos cegos porquê eles eram cegos e como enxergar.

Na idolatria daqueles gregos de Atenas, Paulo viu além do pecado: ele viu a superstição deles, que era resultado do grande zelo religioso daquele povo; os atenienses eram cegos que se esforçavam muito para compreender e experimentar a visão, mesmo nunca tendo visto nada. E de fato eles se esforçavam na adoração: os gregos cultuavam deuses na natureza, nos acontecimentos, nas ideias, nas famílias e até em indivíduos corajosos — estimativas apontam que cerca de 400 divindades maiores eram adoradas pelos gregos.

Mas Paulo tinha um ponto: mesmo tantos deuses, deusas e divindades ainda não eram suficientes para saciar a sede dos religiosos atenienses, e em meio aos inúmeros altares eles mantinham um altar para o "Deus Desconhecido" — eles sabiam que estava faltando algo. Por causa de seu costume de pensar e debater frequentemente, os gregos se tornaram cegos extremamente habilidosos em tatear, chegando muito próximos da Verdade algumas vezes: mesmo sem conhecer o judaísmo ou a Cristo, ao longo do tempo muitos pensadores gregos — inclusive estóicos, — chegaram à conclusão de que os deuses não eram suficientes e que deve existir algo que governa todas as coisas e faz elas serem como são; e eles chamaram essa razão universal de λόγος [lógos], e o descreviam como um fundamento do universo, ou força cósmica, ou razão divina, ou ordem natural das coisas.

Os atenienses sabiam que havia algo a mais, e eram tão zelosos que procuravam honrá-lo mesmo não o conhecendo. Ainda. Paulo então apresenta este Deus Desconhecido aos gregos de Atenas: este é o Deus que criou e governa todas as coisas, que é maior que templos e que não precisa de nós pra nada, pelo contrário, ele nos dá tudo que temos e somos, que nos criou e determinou todas as coisas.

Depois de séculos, esses cegos gregos tinham a sua primeira chance de verdadeiramente verem a Verdade, não com o tatear de suas mãos, mas com o enxergar de seus próprios olhos. Paulo não estava pregando deuses estranhos, mas um Deus que os atenienses sentiam que deveria existir mas não o conheciam (Jo 8:32).

Tão perto, mas não encontram a Deus

Para que buscassem ao Senhor, se porventura, tateando, o pudessem achar; ainda que não está longe de cada um de nós; Porque nele vivemos, e nos movemos, e existimos; como também alguns dos vossos poetas disseram: Pois somos também sua geração. Sendo nós, pois, geração de Deus, não havemos de cuidar que a divindade seja semelhante ao ouro, ou à prata, ou à pedra esculpida por artifício e imaginação dos homens.

— Atos dos Apóstolos 17:27–29

Após apresentar nosso Deus aos atenienses, Paulo pode agora mostrar a eles como é sua situação atual: Deus nos fez para que buscássemos à ele, por isso sentimos em nossa alma que há algo além deste mundo, e por isso até o homem sem Deus tateia em busca dessa Verdade; mas por não conseguir enxergá-la, ele jamais consegue verdadeiramente encontrá-la, por mais que chegue perto suficiente para a tocar, ele sente a Verdade e reconhece sua forma e caracteristicas mas seus olhos estão fechados para vê-la.

O homem sem Deus sabe que deve existir algo que governa os céus, e cria deuses dos céus; ele sabe que algo governa a terra, e cria deuses da terra; ele sabe que algo governa sua vida, e cria deuses da morte, da fertilidade, do amor, da ira.

E Paulo mostra o quão perto os homens sem Deus gregos chegaram da Verdade, citando poemas pagãos que descrevem perfeitamente características de Deus, mas que seus autores atribuíram aos deuses que criaram:

Nele vivemos, e nos movemos, e existimos.

— Poema Crética, de Epimenides

Pois somos também sua descendência.

— Poema Fenômenos, de Arato

Ambos são trechos de poemas sobre Zeus, o deus grego, mas Paulo os atribui a nosso Deus, o mesmo Deus Desconhecido que os gregos honravam sem saber direito quem era.

Ora, se somos descendência de Deus, e portanto servos e submissos a ele, Deus não pode ser de materiais que são servos e submissos a nós, como ouro, prata ou pedra esculpidos na forma que imaginamos que Deus seja. Agora que eles sabem quem é Deus, enfim chegou a hora de condenar a idolatria ateniense.

O fim da ignorância e do desconhecimento

Mas Deus, não tendo em conta os tempos da ignorância, anuncia agora a todos os homens, e em todo o lugar, que se arrependam; Porquanto tem determinado um dia em que com justiça há de julgar o mundo, por meio do homem que destinou; e disso deu certeza a todos, ressuscitando-o dentre os mortos.

— Atos dos Apóstolos 17:30–31

Assim, Paulo finaliza dizendo que Deus não levava em conta a idolatria daqueles atenienses quando ainda não conheciam a Deus, mas que agora que a Verdade foi revelada a eles, estes homens deveriam se arrepender desses pecados. Eles não estavam mais nos tempos da ignorância, e se resistissem ao Evangelho seriam julgados por Cristo, culpados perante Deus e condenados eternamente; mas se cressem em Jesus, não seriam mais cegos.

Conclusão

Nesta pregação em Atenas, Paulo explica aos atenienses porque eles idolatram deuses falsos e porque isso é errado. Ele estabelece que Deus nos fez para o buscarmos, e todos nós buscamos a Deus; mas o homem sem Deus é como um cego que tateia sem rumo, buscando a um Deus que não conhece, apenas sente que deve existir.

E como cego que é, ao tentar deduzir o Deus que não vê, esse homem sem Deus procura por ele na natureza, nos acontecimentos, nas ideias, ou entre outros homens; e criam representações vazias de acordo com o que imaginam que devem ser a forma do Deus Desconhecido. Esta é a origem da idolatria. Ainda assim, ele sabe que essas imagens e essas divindades não são suficientes, mas não importa o quanto procurem: eles não conseguem encontrar.

Por isso, sabendo que não conseguíamos encontrar a Deus, o próprio Deus veio até nós para nos encontrar:

E dará à luz um filho e chamarás o seu nome Jesus; porque ele salvará o seu povo dos seus pecados.

— Evangelho segundo Mateus 1:21

E eis que em teu ventre conceberás e darás à luz um filho, e pôr-lhe-ás o nome de Jesus. Este será grande, e será chamado filho do Altíssimo; e o Senhor Deus lhe dará o trono de Davi, seu pai; E reinará eternamente na casa de Jacó, e o seu reino não terá fim.

— Evangelho segundo Lucas 1:31–33

E sabendo que não conseguíamos enxergar a Deus, o próprio Deus curou a nossa cegueira:

Tocou então os olhos deles, dizendo: Seja-vos feito segundo a vossa fé.
E os olhos se lhes abriram. E Jesus ameaçou-os, dizendo: Olhai que ninguém o saiba.

— Evangelho segundo Mateus 9:29–30

E, tomando o cego pela mão, levou-o para fora da aldeia; e, cuspindo-lhe nos olhos, e impondo-lhe as mãos, perguntou-lhe se via alguma coisa.
E, levantando ele os olhos, disse: Vejo os homens; pois os vejo como árvores que andam.
Depois disto, tornou a pôr-lhe as mãos sobre os olhos, e o fez olhar para cima: e ele ficou restaurado, e viu a todos claramente.

— Evangelho segundo Marcos 8:23–25

E Jesus lhe disse: Vai, a tua fé te salvou. E logo viu, e seguiu a Jesus pelo caminho.

— Evangelho segundo Marcos 10:52

Tendo dito isto, cuspiu na terra, e com a saliva fez lodo, e untou com o lodo os olhos do cego. E disse-lhe: Vai, lava-te no tanque de Siloé (que significa o Enviado). Foi, pois, e lavou-se, e voltou vendo.

— Evangelho segundo João 9:6–7

Então Jesus, movido de íntima compaixão, tocou-lhes nos olhos, e logo seus olhos viram; e eles o seguiram.

— Evangelho segundo Mateus 20:34

E ainda sabendo que não conseguíamos ir a Deus com a força de nossas pernas, o próprio Deus curou a nossa paralisia:

Ora, para que saibais que o Filho do homem tem na terra autoridade para perdoar pecados (disse então ao paralítico): Levanta-te, toma a tua cama, e vai para tua casa.
E, levantando-se, foi para sua casa.

— Evangelho segundo Mateus 9:6–7

Jesus disse-lhe: Levanta-te, toma o teu leito, e anda.
Logo aquele homem ficou são; e tomou o seu leito, e andava. E aquele dia era sábado.

— Evangelho segundo João 5:8–9

E o servo de um certo centurião, a quem muito estimava, estava doente, e moribundo. [...] E, voltando para casa os que foram enviados, acharam são o servo enfermo.

— Evangelho segundo Lucas 7:2,10

O Evangelho é a história de quando o Lógos, a Razão Universal de todas as coisas, o Verbo vivo, veio ao mundo por amor a nós:

No princípio era o λόγος, e o λόγος estava com Deus, e o λόγος era Deus.
E o λόγος se fez carne, e habitou entre nós, e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade.

— Evangelho segundo João 1:1,14