A Supremacia da Sociabilidade Sobre o Conhecimento
Uma análise subjetiva dos papéis sociais dessas características fundamentais do ser humano.
Desde bem novo percebi algo interessante dentre as pessoas com quem convivo: a sociabilidade é um traço fundamental — até decisivo, eu diria, — na vida de uma pessoa. Talvez seja uma peculiaridade de nossa sociedade, não sei, mas preferimos as características sociais às intelectuais. E o mais interessante é que habilidades intelectuais possuem grande consideração pelo senso comum, sendo consideradas decisivas para o sucesso; mas os fatos que analisei durante minha vida dizem o contrário: estas são as habilidades sociais.
Para começar, definirei como premissa duas classificações, para facilitar o entendimento das coisas e podermos seguir com meu ponto:
Temos então o indivíduo que chamaremos de inteligente, que se sobressai em suas habilidades intelectuais: este é o portador do conhecimento — o popular nerd como o conhecemos. Este indivíduo que aqui descrevo não é apenas alguém que conhece muitas características técnicas de determinadas áreas ou assuntos, mas sim alguém que aprende a bem do conhecer, um curioso nato.
Do outro lado, temos quem chamarei de esperto — em um sentido de serem especialistas na área social, pois se sobressaem nessas habilidades. O esperto é o detentor das conexões, o conhecedor das pessoas certas para as situações à disposição, aquele que domina a meticulosa arte da sociabilidade. Por mais que possa soar assim, o esperto como eu descrevo não é alguém que detém conexões a fim de tirar vantagens destas, mas alguém que obtém vantagens a partir das conexões que possui, de forma orgânica; descreverei mais sobre isto a seguir.
Definidos nossos arquétipos, o inteligente e o esperto, podemos nos aprofundar mais em suas característricas para após começarmos comparando-os: o inteligente possui o fundamento da curiosidade humana, desde nosso surgimento somos seres sedentos por descobrir como as coisas funcionam e porquê estas são como são. O conhecimento é a caracteíristica humana que nos permitiu dominar as variáveis da natureza e construir uma sociedade sem igual no planeta; à ele devemos todo o avanço intelectual e tecnológico, desde o surgimento destes aspectos. E não podemos falar em construção da sociedade humana sem mencionar o papel central da sociabilidade nessa etapa e em tantas outras de nossa história: é graças a esta característica, definidora dos espertos, que existem os grupos sociais como os conhecemos, e, num cenário mais amplo, foi esta intrincada teia de conexões sociais que permitiu o surgimento da cooperação direta e posteriormente indireta entre indivíduos — estas que são a base de estruturas sociais características e essenciais a nós, como Economia e Política. A sociabilidade humana é condição sine qua non para a existência de nossa sociedade.
Mas esta conversa está profunda demais para meu ponto, que se mostra muito mais simplista do que isto; aprofundados, portanto, nas definições de conhecimento e conexões, voltemos então aos nossos indivíduos: o inteligente e o esperto.
O inteligente, como aqui definido, é aquele que deixa sua mente vaguear pelo mar dos mais diversos conhecimentos — ao ponto de, em suas áreas de maior interesse, se tornarem especialistas reconhecidos. Mas o conhecimento não possui finalidade em si, no máximo é usável como um meio pelo qual algum avanço se possibilita; mas a maioria esmagadora dos conhecimentos são inúteis de forma objetiva — a não ser em situações estritamente específicas, onde saber que Gandalf era um Anão nórdico ou como se dá o processo de formação de estrelas e planetas possa ter alguma utilidade. Na maioria das vezes, deter conhecimentos proporciona nada mais que alguns minutinhos de fama em conversas com amigos; travestidas de curiosidades interessantes, os conhecimentos conseguem arrancar elogios para o ego do tipo “você é muito inteligente!” que logo são perdidos na torrente subsequente de assuntos de conversas em grupo. Pessoas também recorrem a inteligentes para resolverem problemas, eles são os utensílios e ferramentas dos desígnios alheios, e este constuma ser seu papel em sociedade.
Mas o esperto tem a habilidade nata de criar ligações sociais com as mais diferentes pessoas, em qualquer lugar que estiver; a simpatia e a perspicácia no tratamento conferem a estes um carisma magnético, que atrai pessoas e, consequentemente, conquistas. Em quaisquer lugares que estejam, seja qual for a nacessidade, o esperto sempre terá um conhecido que é amigo próximo de seu parente, ou um amigo de seu ex-patrão, ou um antigo colega de trabalho que mora por perto que podem ter a solução para o problema em questão; eles sabem exatamente a quais pessoas recorrerem — e são bem-recebidos por essas pessoas, pois sabem manter uma boa relação como ninguém.
Estamos enfim chegando ao ponto principal: a vantagem do esperto sobre o inteligente, em uma comparação entre ambos. Se considerarmos o ápice de cada um, o inteligente conseguiria se tornar uma espécie de “guru da montanha” cuja sabedoria em alguma área é almejada por muitos — verdadeiros resolvedores de problemas glorificados. Este inteligente em seu ápice até conseguiria grande influência entre seus pupilos e segidores, mas, sem o mínimo de sociabilidade para gerenciar o jogo de interesses, tudo isto seria para nada.
Mas quando começamos a analisar o ápice de um esperto chegamos aos modelos de personalidade de inspiram a tantos: pessoas influentes, poderosas e bem sucedidas. Mesmo não sendo um exemplo de brilhantismo intelectual, um indivíduo com um carísma e sociabilidade díspares conseguiria alcançar posições de influência sem sombra de dúvidas. Não é difícil encontrar exemplos na vida real de pessoas sem a competência requerida ocupando posições de liderança e responsabilidade, com base apenas nas conexões que possuem ou um grande carisma; e isto não é difícil para estas, uma vez que quando precisam de informações técnicas, conhecem as pessoas certas — geralmente inteligentes, — para resolver seus problemas com eficiência e aumentarem ainda mais seu prestígio.
Claro que, ao analisar pessoas a regra é haver excessões — e em grande número —, e além disso os extremos costumam serem malvistos: gênios sem o mínimo trato social são temidos, enquanto personalidades com a inteligência de uma porta são considerados ingênuos e fúteis. Todos nós temos níveis diferentes de inteligência e sociabilidade, uma maioria se encontra numa média de ambos enquanto uma parte se destaca em um ou outro; meu intuito aqui foi expor que, ao contrário do que nos é dito em nosso tempo de escola, a sociabilidade que nos faz “ser alguém na vida” — o conhecimento é apenas um adicional bem-vindo.