Rhelech Barás
Dia 285 do 3º ciclo de guerra.
Guerra Ardente: é como chamam esta escaramuça que parece não ter fim. Até poucos dias atrás, este nome não nos dizia nada, mas após o horror que vivemos no campo de batalha, parece ser o nome mais apropriado para este inferno.
Somos infantes já calejados pelo conflito, há quase 3 ciclos inteiros vivemos e nos acostumamos com a selvageria da batalha. É comum cavaleiros inimigos provocarem avarias em nossas linhas de soldados desmontados, mas jamais tínhamos visto tamanha aberração: instrumentos autômatos sobre rodas, cuspidores de fogo e fumaça que levaram o terror a nossos bravos soldados. Nossa outrora imponente “Legião Tardia”, como chamamos a Terceira Legião Narag, com seus 42.000 infantes e 17.000 cavaleiros armados e armadurados com as mais avançadas ferramentas de guerra, se viu apequenada ante o horror vindo daqueles Cavalos de Aço cujos cavaleiros não os montavam, mas saíam de dentro de si como poldros selvagens.
Naquele dia o amanhecer foi diferente, como num presságio do que aconteceria nas horas vindouras. Uma fina garoa recobria nosso acampamento, o clangor dos cavaleiros galopando em suas armaduras e o tilintar de espadas se misturava ao som contínuo e sereno da chuva — mas essa calma, trazida pela chuva em meio à tensão de uma batalha iminente, se transforma em apreensão. Tudo estava quieto demais.
Sabíamos que os Primogênitos — como se autoentitula a Legião Asírig de Primeiro Grau, — se aproximava e já estávamos com dificuldades para encontrar batedores para nos alertar o encontro iminente, pois nos últimos dias esta tarefa tinha se mostrado uma viagem sem volta. No receio da batalha, tínhamos antecipado em duas horas a nossa primeira refeição, e foi em meio ao desjejum que os Primogênitos despontaram no Vale de Nidh, à noroeste de nossa posição. Não tivemos tempo para ao menos fazer nossas orações: vestimos nossas cotas de malha, empunhamos nossas espadas e escudos, e nos pusemos em posição. Naquele dia eu empunhava a espada de minha família. Ainda chovia e o sol não estava a pino quando os generais cavalgaram para se encontrar na terra de ninguém, um tremor tomava nossos corpos e ninguém sabia ao certo se pelo frio da manhã ou pela expectativa da batalha.
Ao voltar, o general não parecia feliz, seu cenho intenso se agravava a cada palavra que dizia. Se dirigindo a nós, ele começou a falar em tom sombrio e baixo, mas logo sua voz se projetava aos quatro cantos da Legião Tardia — ouso dizer que até os Primogênitos conseguiam ouvi-lo. A ansiedade que me acometia não me permitiu compreender ao certo tudo o que ele dizia, mas a forma com que falava fez nossos brados de guerra tremer a terra. Alguns momentos depois ouviu-se tambores de guerra vindos do vale, seguidos por gritos que se combinavam de forma ensurdecedora: os Primogênitos começaram a marchar. O general deu a ordem e também começamos a mover-se, como que os imitando — primeiro a passos ritmados e então a corrida frenética. Sentiamos nosso coração chacoalhar o peito, como se desesperado tentasse nos parar com bordoadas no torax enquanto corríamos de encontro à morte certa.
O encontro dos exércitos foi quando os gritos de guerra deu lugar aos gemidos de dor: o tilintar das lâminas em broquéis e do partir de ossos e carne era ensurdecedor. Minha unidade, composta por outros 6 valentes infantes, corajosamente cortava seu caminho entre os Asírig como lenhadores em uma densa floresta. Já estávamos cercados pela fronte e flancos quando sentimos a terra tremer sob nossos pés: de nossa retaguarda vinha a cavalaria Narag. Do outeiro de onde defendíamos nossa posição, víamos como se as estrelas tivessem descido dos céus e viéssem, cavalgando em nosso socorro e clamando em uma só voz: Na’Rorhas! Ao chegarem em nossa retaguarda, vimos aquela gloriosa coluna com milhares de cavaleiros resplandescentes se abrir e tomar os flancos do inimigo.
Na hora nem percebemos que a cavalaria inimiga ainda não tinha aparecido, estávamos em êxtase ao ver mais uma vez nossos cavaleiros fatiar as fileiras infantes hostis com suas lanças como que sem fazer esforço. No segundo assalto montado, os lanceiros dentre os Asírig consiguiram se posicionar e retaliar os ataques, e assim o relinchar das montarias se juntou à cacofonia de agonia e bravura que permeava o campo de batalha. Nos assaltos subsequentes perdemos por volta de 6.800 cavaleiros, entre mortos e feridos. A ação da cavalaria nos deu tempo para moer nosso caminho em meio às fileiras Asírig. Estávamos próximos de cortar o exército inimigo em dois com nossa ponta de lança, enquanto nossos cavaleiros os empalava pelos flancos; os números inimigos minguavam e um rascunho de sorriso ensaiava sua aparição em nossos rostos. A cada minuto que se passava, estávamos mais próximos da vitória.
Em certo momento percebemos todo o exército inimigo se retraindo. Pensávamos que estavam prestes a abandonar a batalha e correrem por suas vidas, mas algo nos chamou atenção: um zumbindo contínuo era ouvido ao longe, de uma cadeia de montes a nosso leste. Alguns minutos depois, nossos cavaleiros percebem uma coluna de fumaça vinda daquela mesma direção. Aos gritos eles avisaram aos demais soldados mas nossa atenção foi roubada por tambores de guerra que começavam a soar dentre bosques a nosso oeste, bem próximo ao campo de batalha. Nossos cavaleiros a oeste, que antes flanqueavam os inimigos, agora se viam prestes e serem flanqueados entre o exército inimigo e os misteriosos tambores, que parciam mais próximos a cada batida. Em certo momento, percebemos toda a massa de infantes inimigos à leste de nós recuar e se espalharem pelo campo de batalha, como formigas ao chegar da chuva: pareciam tão desbaratinados que muitos corriam desarmados em direção a nós e aos cavaleiros, estes agora concentrados ao oeste esperando uma investida vinda dos bosques — e ela logo veio, na forma de duas fileiras de besteiros que cravejavam suas montarias de dardos venenosos.
Quando os inimigos a nosso lado se dispersaram por completo em terror, vimos aquela que era a visão de nossa Condenação: uma manada de máquinas de ferro forjado avançava de forma constante e firme, liberando um rastro de fumaça em seu caminho. Deparando-se com tal aberração, e vendo o horror que tais coisas tinha inflingido no exército inimigo, nossos valentes infantes hesitaram: o sorriso da vitória nos fora arrancado naquele momento e o terror pesava nosso cenho. Divididos em uma linha defensiva frente aos Cavalos de Aço e uma linha ofensiva frente ao remanescente do exército inimigo, continuamos recuando à oeste o quanto podíamos até que as máquinas pararam à uns 5 passos de nós; foi quando percebemos pequenos canos saíndo das Bestas com pequenas chamas em suas pontas, mas o que pensávemos serem olhos de fogo eram bocas, que cuspiam labaredas cruéis. Presos entre os inimigos e o fogo ardente, nós lutávamos bravamente até sermos derretidos vivos ou dilacerados pela espada Asírig. Nossos cavaleiros rapidamente se deslocaram todos a leste para fazer frente aos Cavalos de Aço, mas suas poderosas lanças se viram impotentes frente às Bestas de ferro retorcido; tão rápido quanto chegaram até nós, foi o quão rápido seus cavalos de batalha foram fulminados junto consigo pelas temíveis bocas de fogo inimigas. Naquele dia presenciamos e fomos a presa de um massacre como jamais vimos antes em nossas vidas.
Enquanto batalhava os inimigos à minha fronte, conseguia sentir o ardor do fogo que consumia meus companheiros de batalha em minha retaguarda; ao conseguir desengajar da linha de frente e me virar em ajuda a meus amigos, testemunhei uma imagem cujo terror é inominável: meus compatriotas, amigos que aprendi a respeitar e admirar no curso desta guerra, sendo consumidos pela fúria incontrolável das chamas que devastava nosso exército; pessoas em chamas corriam desesperadas sem rumo, outras paralisavam em meio morticínio de seus pais, irmãos e amigos. Diferentemente do cheiro forte da fumaça das máquinas, agora começava a subir uma névoa que fedia a carne incinerada — as chamas tão próximas já começavam a consumir até mesmo a linha de frente dos inimigos. Devo ter ficado alguns momentos atônito com a cena, mas assim que recobrei meu juízo, percebi que esta era uma batalha sem chances para nós; comecei a correr em direção a nosso sul — a única direção em que ainda não estávamos sendo esmagados pelos inimigos, — e gritava a plenos pulmões para que meus companheiros também recuassem. Mas virar as costas para o inimigo é um convite à carnificina: enquanto corríam por suas vidas inúmeros soldados, infantes e cavaleiros, tiveram suas vidas ceifadas pelo fogo e pela espada.
Graças à misericórdia da Piedosa, saí vivo juntamente com 3 companheiros de unidade. Nossa poderosa Legião Tardia fora reduzida a cerca de 320 homens exaustos, famintos e feridos. A morte de nosso general enquanto retardava o avanço inimigo para que nós pudéssemos recuar nos faz crer que nem mesmo nossos superiores soubessem da existência dessas Bestas metálicas que foram nossos flagelos em batalha. Escrevo este relato para que todo cidadão Narag, seja soldado ou civil, saiba que a Legião Tardia pereceu bravamente frente a um adversário desconhecido e invulnerável diante de nossas estratégias e armas. Seu sacrifício será eternamente lembrado por nossa nação.
Aos meus compatriotas, de um soldado Narag.
Na’Rorhas!